Harbor of Bahia, S. Augustus Mitchell - 1870

O PETRÓLEO É NOSSO, A GASOLINA É DELES

Corrupção e petróleo sempre andaram juntos, e o visionário escritor e nacionalista Monteiro Lobato sofreu muito nas mãos do governo brasileiro até aprender isto.


Embora o governo federal, até os anos 1940, tivesse estabelecido que não existia petróleo no Brasil, havia fartas evidências contrárias. Afinal, já em 1858 o Marquês de Olinda concedera a José Barros Pimentel o direito de extrair mineral betuminoso para fabricação de querosene de iluminação, em terrenos situados nas margens do Rio Marau, na Província da Bahia. Em 1859, o inglês Samuel Allport, durante a construção da Estrada de Ferro Leste Brasileiro, observou o gotejamento de óleo em Lobato, no subúrbio de Salvador. 

No início do século 20, um geólogo dinamarquês encontrou um pocinho que derramava 600 litros de óleo por dia num rio do Mato Grosso ( o governo recusou a licença para exploração). Em 1918, um pesquisador alemão chamado Bach achou em Alagoas um lençol de petróleo "bastante para abastecer o mundo". Morreu misteriosamente enquanto formava uma empresa para explorá-lo.

Demorou, mas jorrou

Em 1930, o engenheiro agrônomo Manoel Inácio Bastos soube que os moradores de Lobato, na Bahia, usavam uma lama preta, oleosa para iluminar suas residências. Realizou pesquisas e coletas de amostras, com as quais procurou interessar pessoas influentes, mas foi considerado pelas autoridades como "maníaco".

Em 1933, ele conseguiu o apoio do presidente da Bolsa de Mercadorias da Bahia, Oscar Cordeiro, e o assunto ganhou vulto. Diante da polêmica formada, com apaixonantes debates nos meios de comunicação, o Departamento Nacional de Produção Mineral - DNPM viu-se pressionado a fazer três vagarosas perfurações na área, a fim de acalmar a discussão e provar que não tínhamos petróleo. Os dois primeiros poços não renderam nada, mas, inesperadamente (para o governo), a terceira perfuração fez jorrar o líquido negro, em 21 de janeiro de 1939.

Monteiro Lobato ficou horrorizado quando este poço, que proporcionou o primeiro jorro de petróleo em terras brasileiras, foi imediatamente fechado pelo governo e, em seguida, enfeitado com um obelisco e os dizeres: "O Primeiro Campo Onde Jorrou Petróleo no Brasil - Organização do Conselho Nacional do Petróleo no Governo do Dr. Getúlio Vargas". O poço ganhou o nome do presidente da Bolsa. Do engenheiro Bastos, verdadeiro responsável pela descoberta, não se soube mais.

A saga de Monteiro Lobato

"O que não somos nunca é ovelha - fiel ovelha do Santo Padre, de Sua Majestade o Rei, do Partido, da Convenção Social, dos Códigos da Moral Absoluta, do Batalhão, de tudo que mata a personalidade das criaturas." (Monteiro Lobato, 1914) 

Lutando contra a resistência do governo, em 1931 Monteiro Lobato criou a Companhia Petróleos do Brasil, que chegou a sofrer intervenção federal sob motivos os mais estapafúrdios. Em 1936, enfim, ele conseguiu fazer jorrar no poço São João, de Riacho Doce, o primeiro jato de gás natural no País.

Mas gás não era petróleo. Dizia-se e redizia-se que no Brasil não havia petróleo. Se houvesse algum, os americanos, espertos que eram, já o teriam descoberto, argumentavam os empresários. Monteiro Lobato pensava diferente. Ele achava que o ferro (aço) e o petróleo eram a base da prosperidade norte-americana e também poderiam ser a do Brasil, com siderúrgicas e refinarias nacionais e mais ecológicas que as dos EUA. 

Na prática, viu que não era nada fácil desafiar o governo e os "poderes ocultos". Todas as suas iniciativas eram sabotadas, recebia ameaças e nada do que precisava por parte do poder público funcionava. Resolveu, então, escrever uma carta cívica ao ditador Getúlio Vargas, cheia de conselhos e reclamações contra o Conselho Nacional de Petróleo. Tanta ousadia foi o suficiente para lhe imputarem pena de seis meses de prisão, em 1941.

Patifaria que perdura

Já desanimado em relação à resistência do governo em melhorar o Brasil, Lobato desistiu de vez da militância nacionalista quando comprovou que a Standard Oil Company (precursora da Exxon, Esso), dos Rockefeller, vinha mapeando todas as áreas petrolíferas do Brasil (e do mundo) desde o final do século 19, com a conivência do governo brasileiro. 

Como os EUA exportavam petróleo refinado para todo mundo, a Standard comprava silenciosamente as principais reservas petrolíferas, inclusive aqui, e as mantinham inexploradas, como reserva estratégica (nota: procedimento idêntico ocorre hoje em relação às fontes de água potável no mundo - multinacionais como Danone, Coca-Cola, Nestlé, Suez e a Génèrale des Eaux já detêm área significativa dos grandes aqüíferos subterrâneos mundiais). 

Para evitar iniciativas nacionalistas de prospecção que poderiam ameaçar o seu monopólio, os americanos subornavam nossos políticos, principalmente os dirigentes do Conselho Nacional de Petróleo. O Monteiro Lobato comprovou tudo isso e, enojado, recolheu-se à vida de escritor infantil e tradutor.

Suas últimas palavras sobre este assunto foram:

"Chega. Não quero nunca mais tocar neste assunto de petróleo. Amargurou-me doze anos de vida, levou-me à cadeia - mas isso não foi o pior. O pior foi a incoercível sensação de repugnância que desde então passei a sentir sempre que leio ou ouço a expressão 'Governo Brasileiro'..."

Obs.: no mapa acima, na parte inferior da Ilha de Itaparica, uma pitoresca legenda indica o Porto de "Caixa Pregos". O lugar ainda existe, é um lindo vilarejo com um rico manguezal.
Celso Serqueira   e-mail do autor

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