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Atlas Náutico France, Dieppe - Koninklijke Bibliotheek - Ano 1538

 

LOBBY E MERCHANDISING NO SÉCULO 16

O mapa acima mostra parte da Costa Atlântica da América do Sul, entretanto, foi concebido fora das referências convencionais e está invertido verticalmente: o norte está para baixo e não para cima como é o padrão atual. Pernambuco está à esquerda e abaixo; o Uruguai e a foz do Rio Prata, à direita e acima.

Este desenho foi feito em 1538 na cidade portuária de Dieppe, na França, e faz parte de um Atlas dedicado ao Delfim - o futuro rei francês Henry II (1547-1559). Mais que uma homenagem, o compêndio foi um presente estratégico preparado e oferecido a Henry por encomenda de um lobby de comerciantes das regiões de Dieppe, de Le Havre e de Rouen, que tentavam despertar o interesse do pai dele, o então rei Francis I, pelas novas terras sul-americanas, em especial, o Brasil. 

Os cartógrafos de Dieppe eram famosos por seus trabalhos confiáveis e com requintes artísticos. Tinham bons contatos com os portugueses, que eram os melhores conhecedores dos mares e das terras no século 16. Alguns itens no mapa acima denunciam a influência lusitana na obra: a forma da representação geográfica, as rosas-dos-ventos que indicam os pontos do compasso para navegação, o modo de escrita dos nomes de lugares e toda a base técnica do desenho e das legendas. 

Coube aos cartógrafos de Dieppe "enfeitarem o pavão", colorindo profusamente o mapa e criando cenas paradisíacas de paisagens, pessoas, flora e fauna. E foi nestes detalhes que entrou o merchandising: por exemplo, os gestos dos nativos no primeiro plano, apontando ao solo e ao homem branco, significavam um sutil convite ao rei francês para a colonização da terra.

A imaginação dos desenhistas se esforçou em atender aos interesses dos lobistas: no sul de Brasil, ao centro da imagem, índios lutam entre si (indicando segurança - tribos violentas eram contidas pelos próprios nativos); mais ao alto e à direita, um selvagem corta pau-brasil com um machado para um comerciante francês (facilidade de extração, subserviência); mais abaixo, indo para o litoral, vários indígenas carregam troncos de pau-brasil para os franceses (fartura de matéria-prima e de mão de obra); à direita, dois franceses e um grupo de índios exploram o interior do país (possibilidade de minérios e outras riquezas). Tudo em meio a plantações, florestas, animaizinhos, índios felizes e muitos papagaios. Irresistível!

Bem, se Francis I não se comoveu ante tanta fartura e beleza, o mesmo não aconteceu com Henri II, que ao subir ao trono tornou viável a vinda de Villegagnon ao Brasil para implantar a França Antártica no Rio de Janeiro (veja aqui). O resultado dessa história a gente conhece, mas o interessante é constatar que há mais de 500 anos já existia lobista e merchandising!

 
Celso Serqueira