Detalhe de Plan de la Baye et du Port de Rio-Janeiro, Apres De Mannevillette, 1751 

UMA LAGOA DE MUITAS HISTÓRIAS

Este mapa do Rio de Janeiro foi um dos primeiros a referenciar os pontos Dois Irmãos, Gávea, Copacabana e Tijuca, e um dos raros a legendar a atual lagoa de Rodrigo de Freitas com o nome português original: Lagoa do Fagundes. 

O nome se refere a Sebastião Fagundes Varela, que em 1609 comprou o engenho de cana que havia junto à lagoa. Entre outros donos, aquele local já tinha pertencido ao "Governador da Parte Sul do Brasil", o português Antônio de Salema, que em 1575 mandara espalhar roupas de mortos por varíola nas matas da região, eliminando os índios por contágio. Provavelmente, foi o primeiro caso de uso de arma biológica no Brasil.

Voltando ao nosso Fagundes, ele invadiu e adquiriu os terrenos vizinhos e onze anos depois já era dono de todas as terras que iam do Humaitá ao Leblon, interior e litoral. Além de explorar o engenho, ele criava gado e extraía madeira da região. Após a sua morte, os negócios passaram a ser administrados pela bisneta e herdeira Da. Petronilha Fagundes, uma solteirona de 31 anos (naquele tempo, as mulheres se casavam com 10 ou 12 anos de idade). 

Em 1702, Petronilha finalmente encontrou um pretendente e não titubeou: casou-se com o jovem oficial de cavalaria português Rodrigo de Freitas de Carvalho, de apenas 16 anos, e para agradá-lo batizou todas as suas propriedades com o nome dele. Daí surgiu a denominação Lagoa Rodrigo de Freitas para aquele belo ponto turístico e de lazer carioca, que ainda hoje evoca um dos mais bem sucedidos golpes do baú em terras brasileiras (pelo menos, é o que dizem as más línguas). Rodrigo de Freitas voltou viúvo e rico para Portugal, em 1717, onde morreu 31 anos depois, na sua Quinta de Suariba. 

A lagoa e seu entorno ficaram praticamente abandonados até princípios do século 19, com alguns arrendamentos mal sucedidos de parte da área. A região só saiu da decadência após 1808, quando o Príncipe D. João desapropriou o engenho da lagoa para construir no local uma fábrica de pólvora e o Real Horto Botânico (atual Jardim Botânico do Rio de Janeiro). 

Um ano após apoderar-se da área, D. João visitou o local e foi mal recebido pelos indignados ocupantes das terras vizinhas, que estavam aborrecidos com a intrusão da Corte e o fim do engenho. Os proprietários mandaram seus feitores e escravos para a beira dos caminhos e, à passagem do príncipe, todos arriaram as calças. Por causa deste original protesto, D. João mandou prender os escravos e cassou ad eternum todos os direitos, mercês e benesses oficiais aos feitores e donos daqueles arredores.

Celso Serqueira e-mail do autor

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