O ESCONDERIJO DO GETÚLIO
Muito se comenta sobre as virtudes da Serra da Mantiqueira, que se espalha pela divisa dos estados de Rio de
Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, com altitude que chega a 2.787 m no Pico das Agulhas Negras, em Itatiaia, RJ. A região é a predileta de turistas,
alpinistas, ecologistas e místicos, mas despertou interesse de cientistas, de militares e - curiosamente - de pelo menos uma princesa e dois
presidentes da república.
Um deles foi o presidente Getúlio Vargas, que em 1932 construiu o seu "bunker" nas Agulhas Negras, num
local paradisíaco e quase inacessível, a quase 2.800 m de altitude. Uma verdadeira fortaleza de rochas, a aconchegante Casa de Pedra (foto), seria o
seu refúgio em caso de ataque ao Palácio do Governo durante a Revolução Constitucionalista. O imóvel atualmente serve de abrigo a excursionistas e
pesquisadores.
Fascinado bela beleza e diversidade da fauna e da flora daquela região, Getúlio, em 1937, criou a primeira área de proteção
ambiental do Brasil, o Parque Nacional de Itatiaia, com 30 mil hectares. Junto ao parque, em 1944, foi inaugurada a AMAN - Academia Militar das
Agulhas Negras, que funciona até hoje.
Bem antes disso, no século 19, a princesa Isabel costumava subir aquela serra para curar-se da
infertilidade com as águas de Caxambu, o que, efetivamente, conseguiu (especula-se na região que o tratamento teria sido reforçado pelos esforços
procriativos de certo coronel mineiro, nas barbas do popularmente odiado Conde D'Eu). A princesa mandou construir uma igreja em Caxambu em
agradecimento pela graça alcançada.
Mas voltemos ao tema. Isabel também adorava aquela região da Mantiqueira e esteve por lá várias vezes.
Numa delas, em 1840, chegou a escalar o Pico das Agulhas Negras em companhia do botânico Augusto Glaziou, que pesquisava a flora montesina dos
arredores. A princesa costumava dormir na fazenda Engenho da Serra, no sopé da Pedra do Picú, em Itamonte, na parte mineira da Mantiqueira. A Capela
de São Francisco de Assis, no centro da cidade, foi construída por ordem da princesa, que doou o sino, em agradecimento pela graça alcançada (?!).
Voltando a 1822, o pesquisador francês Auguste de Saint Hilaire subiu as escarpas da Serra de Itatiaia, classificando centenas de espécies da
flora, seguido pelos botânicos Ernesto Vale e Per Dunsen (1894 a 1903), aprimorando estudos. Em 1840, foi a vez do cientista alemão Von Martius e no
século 20, dos botânicos brasileiros J. de Sampaio, P. Porto, Firmino Tamandaré e Brade. Ainda se encontram nas Agulhas Negras plantas remanescentes
das glaciações que ocorreram há mais de 18 mil anos atrás, cujos únicos "parentes" conhecidos estão no alto da Cordilheira dos Andes.
O outro
presidente ligado a serra da Mantiqueira foi Juscelino Kubitschek: em 1932, participou como tenente-médico das manobras defensivas da invasão de
forças paulistas no alto da serra, e mais tarde declararia: "minha carreira política começou em Itanhandú - MG".
E mais: há quase trinta
anos, quando fui ver um sitio à venda no km 8 da subida da serra, num local de acesso discreto a ponto de não ser visto da estrada, fui surpreendido
com uma série de fotos de JK, amigos e amigas, na sala do casarão. Fiquei sabendo, então, que ali fora um refúgio do presidente, onde ele relaxava com
os amigos e tinha encontros íntimos (por conta disso, o preço do imóvel estava muito acima de minha possibilidade). Ironicamente, a morte de JK
ocorreu num acidente automobilístico muito suspeito, ali pertinho, na Via Dutra, praticamente no início da subida da serra em Itatiaia. Contam os moradores da região que, nos anos 1950, Itatiaia abrigou vários fugitivos nazistas,
principalmente no Hotel Alsene, que depois foram encaminhados para o Paraguai e a Argentina. Também havia um hotel no estilo germânico, à beira
da Via Dutra, entre Itatiaia e Resende, que foi fechado na década de 1970 por promover reunião de neonazistas. Isso parece sugerir que
semelhança apontada por pesquisadores, entre a Casa de Pedra de Getúlio Vargas e o "Ninho da Águia" de Hitler em Berchtesgadenna, nos
Alpes, é mais que mera coincidência.
Celso Serqueira  | |
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