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Recorte de Mapa Turístico Firestone, década de 1950

IPANEMA, QUEM DIRIA, NASCEU EM ARAÇOIABA!

De um hotel resort na Austrália ao primeiro avião à álcool do mundo, Ipanema dá nome a milhares de coisas: a famosa praia carioca, manicômio, banda, água mineral, garota, carro, rádio, TV, times de futebol, lojas, hotéis, bairros, cidades, florestas, rios e até a um simpático morcego (Pygoderma bilabiatum).

Originalmente, em nheengatu tupi, Y-panema significa "rio pobre, sem peixes ou água ruim, suja", entretanto, atualmente o nome evoca a lembrança do valorizado bairro da Zona Sul e símbolo do estilo de vida carioca, de seus bares, da bossa-nova, da praia, da "menina que vem e que passa num doce balanço a caminho do mar". Tudo muito carioquíssimo, não fosse um pequeno, mas fundamental detalhe: Ipanema é paulista.

As muitas Ipanemas

A explicação é simples: os terrenos da atual Ipanema faziam parte da enorme Fazenda de Copacabana até o seu loteamento, em 1894, que deu origem ao bairro "Villa Ipanema". Já especularam que esse nome ("água ruim") se devia à outrora freqüente e malcheirosa mortandade de peixes na vizinha Lagoa Rodrigues de Freitas, mas não é verdade. Trata-se simplesmente de uma homenagem póstuma feita pelo incorporador imobiliário ao seu pai, o Conde de Ipanema, de São Paulo.

Vamos investigar mais a fundo a origem do nome do Conde. Existem dois bairros homônimos em Porto Alegre e Belo Horizonte, mas vamos descartá-los porque são recentes. Em Minas Gerais, temos o município de Conceição de Ipanema e outro, maior, chamado Ipanema. É nele que fica uma das maiores reservas de níquel do mundo, ainda inexplorada, diversas cachoeiras e uma estação ecológica com 127 hectares de mata atlântica. Mas só passou a ter esse nome em 1926, muito depois do bairro carioca. Não serve, portanto.

Vamos ao nordeste: Santana do Ipanema é a principal cidade do sertão de Alagoas, situada à margem do rio Ipanema. Mas até o século 19 não passava de um insignificante arraial habitado por mestiços e nunca teve relevância suficiente para tornar seu nome famoso. Então, nada feito, vamos continuar procurando. Finalmente chegamos ao interior de São Paulo. Foi aqui que o termo 'Ipanema' tornou-se famoso, mais exatamente na atual Reserva Florestal de Ipanema, na Fazenda Ipanema, próxima ao Rio Ipanema, em Iperó, vizinha à Sorocaba.

Do minério à enxada

A história começa em 1589, quando o bandeirante Afonso Sardinha e seu filho buscavam ouro na Serra de Araçoiaba (ex-Morro de Ipanema), perto de Sorocaba, mas encontraram apenas minério de ferro e resolveram explorá-lo. Em oito anos construíram os primeiros fornos metalúrgicos da América, ali, no Vale das Furnas, onde posteriormente funcionou a primeira fundição de ferro (e primeira indústria) do Brasil e, em 1816, a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema.

A fábrica, conhecida como Fundição Ipanema, pertencia à Coroa Portuguesa e a 47 acionistas privados, que trouxeram técnicos suecos para administrá-la. A produção chegou a seis toneladas mensais, na forma de armas e munições para a Revolta Liberal e para a Guerra do Paraguai, além dos artigos básicos no século XIX. Das panelas de ferro a engenhos de açúcar e café, gradis, arame, compassos, escadas, enxadas, foices, machados, luminárias; da ferramenta mais simples ao trabalho mais complexo, tudo se fazia em Ipanema.

O fim do Império marcou a desativação da Real Fábrica de Ipanema, que um século depois, em 1992, foi absorvida pela Floresta Nacional de Ipanema, com 5.069,73 hectares. Hoje saem dali mudas de Pau Brasil, Jequitibá Vermelho e Ipê Amarelo, entre muitas outras que são plantadas num viveiro e usadas para reflorestamento em diversas regiões do estado. É um dos mais importantes bancos genéticos da flora brasileira.

Turismo, história e arqueologia

Facilmente acessível pela Rodovia Castelo Branco, a 128 km da capital de São Paulo, a Fazenda Ipanema dista 8 km do centro de Iperó e se constitui num passeio inesquecível. O ingresso custa cerca de R$ 3 e pode-se dispor de guias do IBAMA,  restaurante e lanchonetes, museu, sanitários, bebedouros, churrasqueiras, estacionamento e hospedagem rústica para grupos com diária a partir de R$30 pela acomodação tripla (valores de 2007, necessário confirmar e reservar). Mais de 20 mil pessoas visitam anualmente a Ipanema original.

São marcantes as instalações que constituem o importante sítio histórico, turístico e arqueológico na Fazenda Ipanema, com seus altos fornos ainda de pé. O conjunto de monumentos históricos impressiona, com ruínas dos séculos XVI e XVIII, além de uma ponte metálica da Inglaterra em perfeito estado. E foi nestas mesmas terras que nasceu o grande escritor e historiador, Adolfo de Varnhagem, Visconde de Porto Seguro, cujo pai foi dirigente da fundição.

Não deixa de ser emocionante estar no local onde se fundiu o ferro para a primeira enxada feita no Brasil e, mais tarde, realizados os primeiros testes de tratores e outras máquinas agrícolas produzidas por brasileiros. Tudo em meio à natureza exuberante e preservada.

Garota de Araçoiaba?!

Bem, está tudo muito bonito, mas o que isso tem a ver com a praia carioca que ficou famosa em todo mundo nas lindas melodias de Vinícius e Tom Jobim?

É que foi nesse grande centro siderúrgico paulista que ganhou destaque o nome "Ipanema", com o qual foi agraciado nobiliarquicamente o empresário e fazendeiro paulista José Antônio Moreira (1797-1879), Conde de Ipanema, pai do incorporador do loteamento da Villa Ipanema - até então, chamada simploriamente de "Praia de Fora". Embora ainda sem referência documental, consta que o Conde seria um dos investidores privados da Real Fábrica de Ipanema.

Eis a origem da nossa ensolarada Ipanema, onde um apartamento de 300 m² pode custar 1,3 milhão de dólares: um riacho de "água ruim", afluente do rio Sorocaba, aos pés da Serra de Araçoiaba, no século 16, que virou fundição, que deu razão ao título do Conde e daí...  Nada mais paulista do que a Ipanema carioca! Ôrra, meu!

(veja também: Copacabana, quem diria, nasceu no Suruí)
Celso Serqueira