Planta da Aldeia Principal de Majuri, Rio Negro, ano 1728

NOSSO ÍNDIO É UM BOBÃO

Na data de 19 de abril, Dia do Índio, mais uma vez as escolas farão encenações com os alunos e o poder público fará alguma solenidade de fachada, para a TV, associando os índios à ecologia, à ingenuidade e à bondade, ressaltando como são coitadinhos. 

Mas será que as nossas dedicadas professoras ensinarão também que estes mesmos índios eram cruéis devoradores - e apreciadores - de churrasco de carne humana, que viviam capturando e comendo uns aos outros, tribo contra tribo? Que estes nativos, enxotados de suas terras pelos brancos, já vinham se expulsando, escravizando e massacrando mutuamente por aqui havia pelo menos 50 mil anos? 

Torço para que tenham coragem, então, de ensinar que os nativos não eram nada ecológicos, ao contrário do que se prega hoje, e viviam de explorar, sujar e arrasar a natureza. E quando os animais e vegetais das cercanias de suas aldeias eram todos consumidos, eles simplesmente tocavam fogo na floresta e buscavam outro lugar para viver e explorar. A índole deles é assim, depredatória. 

Espero que as mestras denunciem aos estudantes que, ainda hoje, os indígenas pouco ligam para a floresta, capturam animais silvestres para vender a contrabandistas e entregam minério, amostras de flora e fauna e a caríssima madeira nobre de suas reservas para estrangeiros, mesmo sabendo que é ilegal, que estes recursos estão em extinção. Expliquem também que eles preferem praticar estes crimes (pelos quais são inimputáveis) porque é mais fácil que trabalhar diariamente pelo sustento de suas famílias, como faz a maior parte da humanidade. 

Mas não se esqueçam de contar da grande coragem e capacidade de raciocínio político de nossos caciques, como Araribóia, Cunhambebe e Aimberê, e das associações valorosas como a Confederação dos Tamoios. Mostrem que nossos antepassados foram gente valorosa, que merecem nosso orgulho e não pena, nem vergonha. Que seja resgatado ao nativo o seu valor real como homem, guerreiro, estrategista político e até como canibal; mas chega de torná-lo uma vítima da história. 

E para quem se acostumou a ver gravuras do padre José de Anchieta em atitude amigável com os índios, é bom saber que essa camaradagem só havia com os que aceitavam a imposição da Igreja Católica. Quando não conseguia catequizar os selvagens, o jesuíta apelava para a orientação do Concílio de Trento: "os nativos que não se submetem aos colonizadores cristãos devem, com justiça, ser exterminados". 

Anchieta empenhou-se em convencer Mem de Sá sobre a necessidade de matar os tamoios que, em suas palavras, "constituem uma brava e carniceira nação, cujas queixadas ainda estão cheias de carne dos portugueses". E depois que os lusitanos, a seu pedido, assassinaram as tribos, o padre jesuíta, radiante, festejou dizendo: "Quem poderá contar os gestos heróicos do chefe à frente dos soldados, na imensa mata! Cento e sessenta as aldeias incendiadas, mil casas arruinadas pela chama devoradora, assolados os campos com suas riquezas, passado tudo ao fio da espada!". Por favor, professoras, contem isto também. É a verdade. 

Não existem inocentes na história da humanidade. As raças têm seu apogeu e declínio e vêm alternando posições de agressor e de vítima desde que surgiram na Terra. Mas já passou da hora de a civilização deixar de acreditar em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e em índio bobão. A-ha-putar!

Celso Serqueira e-mail do autor

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