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A new map of the Kingdom of Portugal, de John Cary, Londres - 1801

ROMEU E JULIETA À PORTUGUESA

Dia dos Namorados se aproximando, as mulheres sonhando e os homens tendo pesadelos com presentes. Apesar do pragmatismo dos tempos modernos, o feitiço do amor e as loucuras da paixão sempre interessaram à humanidade. Romances fortes como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Paulo e Virgínia ainda fazem suspirar e vendem milhões de livros. Embora os contos remetam a paisagens da França e Itália, um dos mais trágicos casos de amor ocorreu em Portugal, no século 14: o drama de Pedro e Inês.

Em 1340, antes de assumir o trono de Portugal, o príncipe Dom Pedro casou com Dona Constança, de Castela, em núpcias arranjadas pelas suas famílias. Na cerimônia, porém, o futuro rei de Portugal apaixonou-se à primeira vista por outra mulher, a belga galega*  Dona Inês de Castro, dama de companhia da noiva. A paixão fulminante os tornou amantes e tiveram quatro filhos. Após a morte da esposa, em 1345, os amantes ficaram ainda mais unidos.

A nobreza fingia não ver os casos de adultério masculino, tidos como prova de virilidade. Entretanto, o pai do príncipe, rei Dom Afonso IV, a corte e o clero se opuseram ao relacionamento de Pedro e Inês. Temiam que um de seus filhos bastardos viesse a reclamar o trono em detrimento do direito da linhagem legítima. Também eram contra a influência que os três irmãos de Inês, estrangeiros como ela, exerciam sobre Pedro, o que poderia ser prejudicial a Portugal. Como nada conseguia separar o casal, os opositores planejaram assassinar Inês.

O crime foi em 1355. Três fidalgos se aproveitaram da ausência de Dom Pedro, que saíra por algumas semanas para caçar, e degolaram sua apaixonada na Quinta das Lágrimas, onde o casal costumava se encontrar (o local ainda existe e abriga um hotel da cadeia Relais & Chateaux). Ao retornar e receber a notícia, o príncipe quase enlouqueceu. Quis matar seu pai e avançou com uma tropa para a cidade do Porto, mas na última hora foi convencido pela sua mãe da inutilidade da vingança: "Não adianta mais, Inês é morta", justificou ela. Vem daí a expressão que ainda usamos para designar uma situação irremediável.

Dois anos depois, o rei Afonso IV morreu e Dom Pedro assumiu o trono. Sua primeira providência foi repatriar os assassinos de Inês, refugiados em Castela. Somente Pero Coelho e Álvaro Gonçalves foram capturados, pois Diogo Pacheco fugira para Aragão. Dom Pedro mandou que ambos fossem torturados durante vários dias e permaneceu todo o tempo na masmorra, apreciando a agonia dos assassinos. Como etapa final do martírio, ainda vivos, ambos tiverem o coração arrancado.

Em seguida, Pedro mandou exumar a ossada de Inês e a coroou rainha de Portugal. A cerimônia foi macabra: postado numa liteira de luxo, o corpo semidecomposto de Inês seguiu em procissão desde o túmulo no Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra (azul no mapa acima), até Alcobaça (verde), muitos quilômetros adiante. No trajeto, toda a nobreza e o clero, que repudiaram o romance, foram obrigados a reverenciar o esqueleto. Na cerimônia de coroação, Dom Pedro I obrigou os presentes a se ajoelharem diante do cadáver e beijarem os ossos da mão. Estava vingado!

Pedro foi rei de Portugal entre 1357 e 1367. Adorado pelo povo, fez muitas obras, reorganizou as finanças do país e aplicou a lei com rigor, chegando a açoitar pessoalmente os ladrões e assassinos mais cruéis. Era chamado de "Pedro I, o Justiceiro" e gostava de fazer bodos - banquetes nos adros das igrejas para distribuir alimentos e dinheiro aos pobres.

Os túmulos de Pedro e Inês estão colocados um diante do outro, no Mosteiro de Alcobaça, e possuem belas tampas mandadas esculpir por Dom Pedro. Seu último desejo foi ser sepultado numa posição que lhe permitisse, ao ressuscitar para o Juízo Final, ver a amada Inês acordando de seu túmulo.

*agradecimento a Antônio Carlos de Castro [ www.genealogiacastro.cjb.net ] pela correção

Celso Serqueira